Som dos Tambores: Projeto fortalece tradição do congo em aldeia Tupinikim
Tambores, casacas e maracás ecoam
nas aldeias indígenas de Comboios e Córrego do Ouro, em Aracruz, como parte do
projeto “Som dos Tambores”, iniciativa que busca fortalecer as tradições
culturais e musicais do povo Tupinikim nestas comunidades. Por meio de oficinas
práticas, registro audiovisual e uma noite cultural, o projeto reúne crianças,
jovens e adultos em torno dos saberes ancestrais e do fortalecimento da
identidade indígena.
Selecionado no Edital de
Diversidade e Territórios da Secretaria da Cultura (Secult), o projeto conta
com recursos do Fundo Estadual de Cultura (Funcultura) e apoio da Associação
Indígena Tupinikim de Comboios (AITC).
A iniciativa surge em um contexto
de preocupação com a preservação cultural entre as novas gerações. “O projeto
busca criar atividades culturais para aproximar crianças e jovens da cultura e
identidade Tupinikim, evitando que passem muito tempo presos às telas de
celular ou se envolvam com álcool e drogas”, explica o coordenador e proponente
Hudson Moraes Coutinho.
Os oficineiros responsáveis pelas
atividades são os indígenas Tupinikim Fábio Rocha de Jesus e Josy Pereira
Ferreira, moradores da aldeia de Areal. Josy, que também possui descendência na
aldeia de Comboios, destaca a importância da transmissão dos conhecimentos
tradicionais. “Está sendo uma experiência muito boa. A gente fica feliz de
poder repassar nosso saber, para não deixar a cultura morrer, porque o indígena
sem cultura não é nada”, afirma.
Os instrumentos são confeccionados
exclusivamente com materiais naturais retirados de forma sustentável. As
oficinas começam com a ida coletiva à mata para a coleta de madeiras e cipós,
respeitando conhecimentos tradicionais sobre o tempo correto da retirada e
ensinando-os aos oficineiros. “Os participantes conhecem os instrumentos e
sabem tocá-los, mas nunca tinham tido a oportunidade de fazê-los. Parece
simples, mas dá muito trabalho. Tem que colher na lua certa, porque isso
interfere na qualidade da madeira e do instrumento”, pontua Fábio Rocha.
A primeira oficina realizada foi
de construção de maracás - um instrumento ancestral feito com cabaça, madeira e
sementes ou grãos que faz parte do congo Tupinikim. Ela contou com a
participação de estudantes da escola da aldeia de Comboios. Segundo Natanaeli
Moraes Silveira, uma das produtoras do projeto, a atividade teve apoio da
direção escolar e da professora de Tupi.
“Pais e professores relataram que
as crianças chegaram em casa e na escola empolgadas, comentando. Eles se
entregam mesmo durante as atividades, ficaram muito animados”, conta. Esse tipo
de projeto para envolver os mais novos na cultura local é ainda mais relevante
levando em conta que em Comboios os jovens estudam na comunidade com educação
escolar indígena apenas até o Ensino Fundamental. Em Córrego do Ouro, as
crianças e jovens precisam desde cedo estudar em outras comunidades
não-indígenas nas proximidades, sem ter acesso a uma educação especial
orientada dentro de sua cultura tradicional.
A segunda oficina do projeto, para
construção de casacas, foi destinada apenas aos adultos devido ao uso de
ferramentas que exigem maior cuidado. Os novos instrumentos agora se somam aos
poucos existentes nas comunidades, permitindo maior participação, além do
aprendizado para que as aldeias possam produzir suas próprias casacas.
No próximo sábado, os
participantes vão até a mata para retirar as madeiras utilizadas na confecção
dos tambores. O couro de boi que será usado no tambor tradicional já foi
preparado.
A tradição do congo em Comboios
também carrega a história de resistência da comunidade. O cacique Alair
Elisiário relembra que a aldeia, localizada entre o rio e o mar, foi fortemente
impactada pelo rompimento da barragem de Mariana (MG), em 2015, quando o
rejeito de minério da Samarco/Vale-BHP atingiu o Rio Doce e o litoral capixaba,
afetando a pesca e a relação da comunidade com as águas.
Mesmo diante das dificuldades e do
período de isolamento durante a pandemia, o congo se fortaleceu como expressão
cultural coletiva. “Desde que me entendo por gente já existia uma banda de
congo em Comboios. Com o passar do tempo ela acabou, mas há cerca de dez anos
começamos esse resgate”, frisa o cacique.
Hoje, a aldeia conta com grupos de
crianças, jovens e adultos que mantêm viva a tradição, especialmente nas
celebrações do Dia dos Povos Indígenas. A expectativa é que o projeto “Som dos
Tambores” fortaleça ainda mais esse movimento e possibilite novas apresentações
dentro e fora da comunidade.
Para o presidente da AITC,
Jocinaldo Coutinho o projeto representa um reencontro com os conhecimentos
ancestrais. “É gratificante porque estamos buscando reviver a cultura de nossos
antepassados, ensinando para nossas crianças um conhecimento que quase se
perdeu. É um aprendizado que será repassado para outras pessoas, sucessivamente.”
Além da oficina de tambores, o
projeto culminará em uma noite cultural, em que haverá apresentação de congo,
exibição do documentário realizado e outras atividades culturais, em data ainda
a ser definida.
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