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Som dos Tambores: Projeto fortalece tradição do congo em aldeia Tupinikim

Publicado em: 13/05/2026 16h28

Tambores, casacas e maracás ecoam nas aldeias indígenas de Comboios e Córrego do Ouro, em Aracruz, como parte do projeto “Som dos Tambores”, iniciativa que busca fortalecer as tradições culturais e musicais do povo Tupinikim nestas comunidades. Por meio de oficinas práticas, registro audiovisual e uma noite cultural, o projeto reúne crianças, jovens e adultos em torno dos saberes ancestrais e do fortalecimento da identidade indígena.

Selecionado no Edital de Diversidade e Territórios da Secretaria da Cultura (Secult), o projeto conta com recursos do Fundo Estadual de Cultura (Funcultura) e apoio da Associação Indígena Tupinikim de Comboios (AITC).

A iniciativa surge em um contexto de preocupação com a preservação cultural entre as novas gerações. “O projeto busca criar atividades culturais para aproximar crianças e jovens da cultura e identidade Tupinikim, evitando que passem muito tempo presos às telas de celular ou se envolvam com álcool e drogas”, explica o coordenador e proponente Hudson Moraes Coutinho.

Os oficineiros responsáveis pelas atividades são os indígenas Tupinikim Fábio Rocha de Jesus e Josy Pereira Ferreira, moradores da aldeia de Areal. Josy, que também possui descendência na aldeia de Comboios, destaca a importância da transmissão dos conhecimentos tradicionais. “Está sendo uma experiência muito boa. A gente fica feliz de poder repassar nosso saber, para não deixar a cultura morrer, porque o indígena sem cultura não é nada”, afirma.

Os instrumentos são confeccionados exclusivamente com materiais naturais retirados de forma sustentável. As oficinas começam com a ida coletiva à mata para a coleta de madeiras e cipós, respeitando conhecimentos tradicionais sobre o tempo correto da retirada e ensinando-os aos oficineiros. “Os participantes conhecem os instrumentos e sabem tocá-los, mas nunca tinham tido a oportunidade de fazê-los. Parece simples, mas dá muito trabalho. Tem que colher na lua certa, porque isso interfere na qualidade da madeira e do instrumento”, pontua Fábio Rocha.

A primeira oficina realizada foi de construção de maracás - um instrumento ancestral feito com cabaça, madeira e sementes ou grãos que faz parte do congo Tupinikim. Ela contou com a participação de estudantes da escola da aldeia de Comboios. Segundo Natanaeli Moraes Silveira, uma das produtoras do projeto, a atividade teve apoio da direção escolar e da professora de Tupi.

“Pais e professores relataram que as crianças chegaram em casa e na escola empolgadas, comentando. Eles se entregam mesmo durante as atividades, ficaram muito animados”, conta. Esse tipo de projeto para envolver os mais novos na cultura local é ainda mais relevante levando em conta que em Comboios os jovens estudam na comunidade com educação escolar indígena apenas até o Ensino Fundamental. Em Córrego do Ouro, as crianças e jovens precisam desde cedo estudar em outras comunidades não-indígenas nas proximidades, sem ter acesso a uma educação especial orientada dentro de sua cultura tradicional.

A segunda oficina do projeto, para construção de casacas, foi destinada apenas aos adultos devido ao uso de ferramentas que exigem maior cuidado. Os novos instrumentos agora se somam aos poucos existentes nas comunidades, permitindo maior participação, além do aprendizado para que as aldeias possam produzir suas próprias casacas.

No próximo sábado, os participantes vão até a mata para retirar as madeiras utilizadas na confecção dos tambores. O couro de boi que será usado no tambor tradicional já foi preparado.

A tradição do congo em Comboios também carrega a história de resistência da comunidade. O cacique Alair Elisiário relembra que a aldeia, localizada entre o rio e o mar, foi fortemente impactada pelo rompimento da barragem de Mariana (MG), em 2015, quando o rejeito de minério da Samarco/Vale-BHP atingiu o Rio Doce e o litoral capixaba, afetando a pesca e a relação da comunidade com as águas.

Mesmo diante das dificuldades e do período de isolamento durante a pandemia, o congo se fortaleceu como expressão cultural coletiva. “Desde que me entendo por gente já existia uma banda de congo em Comboios. Com o passar do tempo ela acabou, mas há cerca de dez anos começamos esse resgate”, frisa o cacique.

Hoje, a aldeia conta com grupos de crianças, jovens e adultos que mantêm viva a tradição, especialmente nas celebrações do Dia dos Povos Indígenas. A expectativa é que o projeto “Som dos Tambores” fortaleça ainda mais esse movimento e possibilite novas apresentações dentro e fora da comunidade.

Para o presidente da AITC, Jocinaldo Coutinho o projeto representa um reencontro com os conhecimentos ancestrais. “É gratificante porque estamos buscando reviver a cultura de nossos antepassados, ensinando para nossas crianças um conhecimento que quase se perdeu. É um aprendizado que será repassado para outras pessoas, sucessivamente.”

Além da oficina de tambores, o projeto culminará em uma noite cultural, em que haverá apresentação de congo, exibição do documentário realizado e outras atividades culturais, em data ainda a ser definida.

 

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