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Primeiro longa-metragem dirigido por um cineasta Guarani no estado marcou o início da programação do Cine Teia 2026

Publicado em: 25/05/2026 10h05

Ao longo de três minutos, o cineasta Wera Djekupé saudou o público. Ao final, pergunta: “E então, todos entenderam?”. O questionamento pode parecer estranho, mas a explicação é a escolha da língua utilizada por ele, o Guarani. “Eu falo minha língua todos os dias com o meu povo. Isso é cultura viva”, completa ele.

 

Wera Djekupé, ou Marcelo Guarani em português, é o diretor de Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywarete, filme escolhido para a sessão de abertura do Cine Teia na última quinta-feira (21), no Sesc Vila Formosa, em Aracruz (ES). A obra integrou a programação da 6ª Teia Nacional. O primeiro longa-metragem dirigido por um cineasta Guarani no estado conta com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG) e acompanha a trajetória da bisavó do cineasta, a líder indígena Tatatxi Ywarete. Durante mais de três décadas, ela percorreu o sul e o sudeste do Brasil em busca da "terra sem males" para seu povo. A travessia por diferentes territórios tornou-se, também, prova de resistência e preservação da memória de um povo.

 

“A gente quer eternizar a história dela, da caminhada, para que essa história não seja apagada da memória das pessoas, né? Porque a cultura tem que ser viva e ela é viva”, afirma o diretor.

 

Tatatxi Ywarete foi símbolo de resistência de sua comunidade ao proteger familiares e lutar contra grileiros que tentavam se apropriar das terras indígenas. “Na época,o governo era muito severo demais e seguia o sistema da ditadura militar. Ele pegou os indígenas e levou para Minas. Lá tinha um lugar semelhante a um presídio. E foi nesse caminho que eu nasci. Eu cresci nesse lugar, mas como eu era criança, não entendia direito aquilo. Só depois que eu entendi a história”, detalha Wera Djekupé.

 

A bisavó conseguiu levar, um a um, os familiares para o Espírito Santo, sendo ela a última a deixar a “prisão” mineira para trás. “Aqui no Espírito Santo, ela se junta de novo com os Tupiniquim e aí começam a lutar. Até que ela faz a primeira demarcação de terra no estado”, completa o cineasta.

 

As gravações duraram cerca de um ano, movimentou anciões, gerou visitas a antigos territórios e trouxe aos jovens Guarani parte da memória de luta e conquista de seus ancestrais

 

 

Formação e memória

 

As gravações duraram pouco mais de um ano e movimentou anciões, gerou visitas a antigos territórios e trouxe aos jovens Guarani parte da memória de luta e conquista de seus ancestrais

 

Ainda na fase de pré-produção, uma oficina de fotografia e som capacitou cerca de 20 indígenas de todas as aldeias, que passaram a integrar a produção do filme, junto com técnicos não indígenas.

 

 

Cine Teia

 

O Cine Teia nasce de uma parceria entre a Secretaria do Audiovisual (SAV) e a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC) do Ministério da Cultura.

 

Com objetivo de fortalecer a rede de pontos e pontões de cultura que atuam com o audiovisual integrado ao fazer comunitário e possibilitar que as políticas públicas vinculadas contribuam cada vez mais para o desenvolvimento social da comunidade, a preservação das memórias de mestres e mestras e a difusão da diversidade do Brasil nas telas, as obras são plurais e vindas de todo o país.

 

Após a exibição do documentário, diretor e convidados participaram de uma roda de conversa conduzida por Adriana

 

Durante o bate-papo, a plateia refletiu sobre a importância de preservar as tradições dos povos guarani, destacando a relação entre cultura e o cuidado com a floresta. Também foram abordados aspectos do processo de criação do filme, evidenciando um trabalho cuidadoso e comprometido com a valorização desses saberes.

 

O diretor ressaltou que a produção tem como objetivo aproximar os mais jovens das vivências e conhecimentos de seus antepassados, fortalecendo a conexão com a história do povo guarani. Já a diretora e a co-roteirista Fernanda Keretxu , autodeclarada como mulher indígena, destacou o impacto de conhecer essa cultura, especialmente pelo protagonismo das mulheres, que são ouvidas e reconhecidas em suas comunidades, como exemplifica a história de Tatatxi.

 

 

Teia Nacional

 

A 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura reúne agentes culturais, coletivos, mestres e mestras das culturas populares, povos tradicionais, representantes da sociedade civil e gestores públicos de todas as regiões do Brasil.

 

O evento é uma realização do Ministério da Cultura, do Governo do Estado do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), o Sesc, Unesco e o programa IberCultura Viva.

 

Fonte: Ministério da Cultura.

 

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