Primeiro longa-metragem dirigido por um cineasta Guarani no estado marcou o início da programação do Cine Teia 2026
Ao longo de três minutos, o cineasta Wera Djekupé saudou o
público. Ao final, pergunta: “E então, todos entenderam?”. O questionamento
pode parecer estranho, mas a explicação é a escolha da língua utilizada por
ele, o Guarani. “Eu falo minha língua todos os dias com o meu povo. Isso é
cultura viva”, completa ele.
Wera Djekupé, ou Marcelo Guarani em português, é o diretor
de Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywarete, filme escolhido para a sessão de
abertura do Cine Teia na última quinta-feira (21), no Sesc Vila Formosa, em
Aracruz (ES). A obra integrou a programação da 6ª Teia Nacional. O primeiro
longa-metragem dirigido por um cineasta Guarani no estado conta com recursos da
Lei Paulo Gustavo (LPG) e acompanha a trajetória da bisavó do cineasta, a líder
indígena Tatatxi Ywarete. Durante mais de três décadas, ela percorreu o sul e o
sudeste do Brasil em busca da "terra sem males" para seu povo. A
travessia por diferentes territórios tornou-se, também, prova de resistência e
preservação da memória de um povo.
“A gente quer eternizar a história dela, da caminhada, para
que essa história não seja apagada da memória das pessoas, né? Porque a cultura
tem que ser viva e ela é viva”, afirma o diretor.
Tatatxi Ywarete foi símbolo de resistência de sua comunidade
ao proteger familiares e lutar contra grileiros que tentavam se apropriar das
terras indígenas. “Na época,o governo era muito severo demais e seguia o
sistema da ditadura militar. Ele pegou os indígenas e levou para Minas. Lá
tinha um lugar semelhante a um presídio. E foi nesse caminho que eu nasci. Eu
cresci nesse lugar, mas como eu era criança, não entendia direito aquilo. Só
depois que eu entendi a história”, detalha Wera Djekupé.
A bisavó conseguiu levar, um a um, os familiares para o
Espírito Santo, sendo ela a última a deixar a “prisão” mineira para trás. “Aqui
no Espírito Santo, ela se junta de novo com os Tupiniquim e aí começam a lutar.
Até que ela faz a primeira demarcação de terra no estado”, completa o cineasta.
As gravações duraram cerca de um ano, movimentou anciões,
gerou visitas a antigos territórios e trouxe aos jovens Guarani parte da
memória de luta e conquista de seus ancestrais
Formação e memória
As gravações duraram pouco mais de um ano e movimentou
anciões, gerou visitas a antigos territórios e trouxe aos jovens Guarani parte
da memória de luta e conquista de seus ancestrais
Ainda na fase de pré-produção, uma oficina de fotografia e
som capacitou cerca de 20 indígenas de todas as aldeias, que passaram a
integrar a produção do filme, junto com técnicos não indígenas.
Cine Teia
O Cine Teia nasce de uma parceria entre a Secretaria do
Audiovisual (SAV) e a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC) do
Ministério da Cultura.
Com objetivo de fortalecer a rede de pontos e pontões de
cultura que atuam com o audiovisual integrado ao fazer comunitário e
possibilitar que as políticas públicas vinculadas contribuam cada vez mais para
o desenvolvimento social da comunidade, a preservação das memórias de mestres e
mestras e a difusão da diversidade do Brasil nas telas, as obras são plurais e
vindas de todo o país.
Após a exibição do documentário, diretor e convidados
participaram de uma roda de conversa conduzida por Adriana
Durante o bate-papo, a plateia refletiu sobre a importância
de preservar as tradições dos povos guarani, destacando a relação entre cultura
e o cuidado com a floresta. Também foram abordados aspectos do processo de
criação do filme, evidenciando um trabalho cuidadoso e comprometido com a
valorização desses saberes.
O diretor ressaltou que a produção tem como objetivo
aproximar os mais jovens das vivências e conhecimentos de seus antepassados,
fortalecendo a conexão com a história do povo guarani. Já a diretora e a
co-roteirista Fernanda Keretxu , autodeclarada como mulher indígena, destacou o
impacto de conhecer essa cultura, especialmente pelo protagonismo das mulheres,
que são ouvidas e reconhecidas em suas comunidades, como exemplifica a história
de Tatatxi.
Teia Nacional
A 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura reúne agentes
culturais, coletivos, mestres e mestras das culturas populares, povos
tradicionais, representantes da sociedade civil e gestores públicos de todas as
regiões do Brasil.
O evento é uma realização do Ministério da Cultura, do
Governo do Estado do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão
Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do
Espírito Santo (Ifes), o Sesc, Unesco e o programa IberCultura Viva.
Fonte: Ministério da Cultura.
Informações
à imprensa
Assessoria de Comunicação da Secult
Tati Beling | Danilo Ferraz | Karen Mantovanelli
Telefone: (27) 3636-7110 / 3636-7111
WhatsApp: (27) 99753-7583
secultjornalismo@gmail.com | comunicacao@secult.es.gov.br