Do Congo ao Espírito Santo: formação do Lugares de Ler debate cosmologias africanas e leitura antirracista
O projeto Lugares de Ler promoveu
uma formação voltada aos agentes de leitura e à equipe da iniciativa com o tema
“Saberes e Sabores da Literatura Africana como Pesquisador: Cosmologias
Africanas e Leitura”, conduzida pelo pesquisador congolês Abraão Nicodemos
Chanhino Ndjungu. O encontro reuniu reflexões sobre ancestralidade, oralidade,
memória e outras formas de compreender a leitura e a produção de conhecimento a
partir das cosmologias africanas.
Nascido na República Democrática do
Congo, criado em Angola e atualmente radicado no Brasil, Abraão Ndjungu é
pedagogo, mestre em Educação e doutorando em Educação pela Universidade Federal
do Espírito Santo (UFES). Seus estudos investigam as relações entre currículo,
memória e colonialidade do saber, com foco na valorização das epistemologias
africanas e afro-brasileiras nos espaços educativos.
Durante a formação, o pesquisador
apresentou perspectivas da cosmologia bantu-kongo e do pensamento filosófico de
Ifà, abordando a leitura como uma experiência que ultrapassa a palavra escrita.
A proposta discutiu maneiras de “ler o mundo” por meio da observação da
natureza, da ancestralidade, dos símbolos, dos provérbios e das práticas
culturais presentes nas tradições africanas.
Ao longo do encontro, a oralidade
foi destacada como uma das principais formas de preservação e circulação de
saberes. Contos, cantos e provérbios foram apresentados como “bibliotecas
vivas”, capazes de transmitir memórias, valores e conhecimentos entre gerações.
Outro ponto debatido foi a dimensão
coletiva da leitura nas culturas africanas. Diferente da lógica individualizada
predominante nas tradições ocidentais, a formação trouxe a leitura como prática
compartilhada, vivenciada em rodas, encontros comunitários, celebrações e
espaços de convivência.
A atividade também ampliou a
compreensão sobre os chamados “lugares de ler”, reconhecendo bibliotecas
comunitárias, quilombos, terreiros, escolas, territórios periféricos e
experiências cotidianas como espaços legítimos de produção e circulação de
conhecimento.
Segundo o projeto, a formação
reforça o papel dos agentes de leitura como mediadores culturais capazes de
promover práticas mais inclusivas, contextualizadas e conectadas às identidades
e vivências das comunidades onde atuam.
O encontro integrou o processo
formativo contínuo do Lugares de Ler, que é uma realização da Secretaria da
Cultura (Secult), por meio da Biblioteca Pública do Espírito Santo (BPES), em
parceria com o Instituto Raízes, selecionado via chamamento público. A
iniciativa conta com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do
Ministério da Cultura, e integra as ações do programa Estado Presente em Defesa
da Vida, voltado a regiões com altos índices de vulnerabilidade social.
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